desOCuPações – os RoboCops do João Trabalhador

Fui convidado pelos amigos do “Frequência Máxima” para ocupar este espaço dedicado ao cinema dentro do site deles. A minha reflexão foi demorada, pois não queria reproduzir mais um blog com resenhas de filmes (e até mesmo séries) que vejo por aí, mas estimular as pessoas verem filmes, mesmo os não-datados. A nova febre dos streamings, puxados pelo Netflix, nos permite atiçar essa cinefilia que pode existir ou não dentro de você.

Assim, resolvi estrear falando sobre cenas que assistimos nesta terça dia 23 de maio nos telejornais, onde o prefeito de SP autorizou a demolição de prédios na “cracolândia” com pessoas dentro dele, emitindo mandados de reintegração de posse para moradores e comerciantes se retirarem e também seus pertences em até 2 horas.

Se você leitor tem alguma noção de Direito e de civilidade, perceberá a gravidade desse conjunto de ações da Prefeitura na condução de um caso que envolve muito mais do que apenas a desocupação de imóveis, se trata de direito à moradia e também uma questão de saúde, quando envolve dependentes químicos alocados ali.

Só a “cracolândia” poderia merecer um post só para ela, mas prefiro neste texto abranger os limites estreitos entre a iniciativa privada e o Poder Público, que produziu esse conjunto extravagante e intolerante de ações contra cidadãos, sem diálogo e truculência. Um tema que o diretor holandês Paul Verhoeven abordou de forma inteligente, mesmo que comercial, em um dos seus filmes mais populares:

“RoboCop – O Policial do Futuro” (1987) tratava da história do policial Alex Murphy (Peter Weller), que é vítima de um ataque violento de gangue que o incapacita terminalmente, o que o torna a cobaia perfeita para a OCP, empresa privada que cuida da segurança pública de uma Detroit futurista, distópica e permeada de muita violência, lançar seu protótipo ciborgue do policial perfeito, RoboCop.

Ao longo do filme, Murphy vai aos poucos, com suas memórias, afetando o controle da OCP sobre sua carcaça metálica e programação, para ir em busca dos responsáveis por sua mutilação, e dentro desse contexto, o filme mostra muito bem como se chocam os interesses privados e públicos em diversas situações envolvendo a segurança pública, o que o torna um bom material de debate para os tempos de hoje.

O remake RoboCop, feito pelo diretor brasileiro José Padilha (de “Tropa de Elite” e continuação) em 2014, que alterou o personagem principal e tentou flertar mais com o controle da mídia sobre a questão do imperialismo e seus aparelhos de repressão, deixa bastante a desejar no conteúdo de todo o contexto em torno da figura do RoboCop perante a comunidade, diferente do filme original, e o seu final é ambíguo e aberto demais para a importância do tema, podendo levar os mais desavisados a enxergá-lo como um tratado fascista (como muitos também fizeram com o filme brasileiro que deu popularidade ao mesmo diretor).

Geralmente a ficção científica no cinema nos leva a grandes metáforas de cenários que vivemos na realidade ou podemos projetar como alertas, e o RoboCop de 1987 claramente nos mostrou o caminho que nos levaria o controle da segurança pública pela iniciativa privada – algo que já vimos bastante por aí em iniciativas, e por aqui em propostas de privatizações de presídios, onde o lucro do investidor seria mensurado pela quantidade encarcerada “atendida”. Aliás, já estão copiando a ficção e já existem RoboCops reais.

Vivemos tempos de reflexão e necessidade drástica de ponderações dada a velocidade de diversos acontecimentos duros, mas importantes pro amadurecimento do país, e o cinema pode sim ser um bom canal para desenvolvermos essas necessidades. Espero que mergulhem nessa idéia a partir de hoje neste canal.