GANHAR A QUALQUER PREÇO?

Esta é uma velha e batida questão. Volto a ela motivado pela declaração do treinador do São Paulo, Rogério Ceni no programa Bem, Amigos! do SportTV no último dia 22 de maio, ainda sobre o episódio do zagueiro Rodrigo Caio na jogada com o atacante Jô do Corinthians, nas semifinais do campeonato paulista. Ceni voltou a declarar sua insatisfação com a atitude do seu jogador, que acabou beneficiando o adversário, o qual teria levado um cartão amarelo e assim estaria suspenso do próximo jogo. Bom, a história é controversa, e as opiniões são divergentes. Respeito a todos, mas quero expressar o que penso em relação ao fato.

Primeiramente, não só aplaudo o Rodrigo Caio pela coragem que teve em corrigir a marcação do árbitro, como também incentivo a que ele continue agindo assim, e espero que todos os jogadores sigam o seu exemplo.

As arbitragens por aqui já não andam lá muito bem. Todos reclamam dos nossos juízes, mas a todo instante vemos jogadores simulando faltas e agressões, na tentativa de ludibriar os árbitros. Muitos dirão que o juiz está ali para ver os lances e apitar; se não viu, azar o dele, e sorte de quem foi beneficiado, pois afinal essa é a graça do futebol. Então o papel do jogador em campo seria, além de jogar futebol, encenar para enganar a arbitragem, e assim levar vantagem. Seguindo essa lógica, concluímos que o importante é ganhar, e aí vale qualquer negócio, vale qualquer atitude.

Discordo completamente desta forma de agir, e penso que, no momento que Ceni ironiza o treinador da seleção brasileira e seu próprio jogador, ele acaba cometendo uma grande injustiça, além de demonstrar uma ponta de mágoa em relação a Tite.

Quando ele declara, ironicamente, que Tite e Rodrigo Caio “devem ser pessoas melhores” do que ele, eu acho que Ceni acertou, pois neste quesito ambos já chegaram sim a um patamar superior ao do treinador do São Paulo, pois conseguem entender o jogo de futebol como uma disputa que possui regras definidas, e que o árbitro pode errar sem a intenção, muitas vezes por ter sua visão encoberta, ou por estar acompanhando o lance por um ângulo desfavorável. E que não há qualquer honra numa vitória conquistada indevidamente.

Agora, o que mais me decepcionou nas declarações do Rogério Ceni foi em relação à convocação do seu jogador para a seleção brasileira, insinuando que ela teria sido motivada pelo seu ato de honestidade, afirmando então que daqui em diante todos jogador que agir desta maneira teria que convocado. Isso é uma injustiça com o Tite e com o seu atleta, pois ao mesmo tempo que desvaloriza e desmerece a convocação de Rodrigo Caio, ele coloca em xeque os critérios técnicos do treinador da Seleção Brasileira.

Enfim, no momento político tão conturbado que vivemos em nosso país, quando clamamos pela honestidade e pela ética nas atitudes das pessoas, fico decepcionado com um posicionamento que parece estar na contramão de tudo isso.

Ganhar é bom. É para isso que existem as competições. Mas ganhar fraudando as regras, prejudicando o outro, usando de artifícios escusos, ou mesmo levando uma vantagem que lhe foi concedida indevidamente, não me parece digno. Parabenizo mais uma vez a atitude do jogador e reafirmo que gostaria muito que atitudes assim fossem multiplicadas nos campos de futebol pelo Brasil.

Grande abraço.